Todo mês, ela chega. Às vezes avisa um dia antes, com um peso no pé da barriga. Às vezes chega de uma vez, no meio de uma reunião, no ônibus, na fila do mercado. E a gente faz o que aprendeu a fazer: toma um remédio, respira fundo e segue.
Em tantos anos de consultório, eu ouvi essa história muitas vezes. E aprendi uma coisa: a cólica quase nunca vem sozinha.
O útero tem vizinhos
O útero fica no centro da pelve, cercado de vizinhos: a bexiga na frente, o intestino atrás, os músculos do assoalho pélvico embaixo, o diafragma lá em cima conduzindo a respiração. Todos conversam entre si o tempo inteiro.
Quando o útero contrai na menstruação, essa conversa fica mais intensa. Se a musculatura ao redor já está tensa, se o intestino anda preso, se a respiração está curta e alta no peito, a contração encontra um corpo sem espaço. E dói mais.
Por isso tantas mulheres sentem a cólica descer para a lombar, para as coxas, para a virilha. A dor sai do útero pelo caminho dos tecidos.
A cólica conta como foi o seu mês
Experimente reparar: a cólica vem igual todos os meses?
Muitas mulheres percebem que, nos meses mais pesados, ela é mais forte. O mês em que dormiram mal, em que comeram correndo, em que passaram dias sentadas, em que seguraram o choro, em que não pararam nem no fim de semana.
O corpo registra o mês inteiro, e a menstruação é o momento em que esse registro aparece. A cólica pode ser um recado sobre o que aconteceu antes dela.
A culpa não é sua. Existe algo para observar, e observar já é uma forma de cuidar.
A mesma cólica, duas mulheres
Uma vive no acelerado. Cuida de todo mundo, diz sim para tudo, trava a mandíbula sem perceber. A cólica dela aparece como um aperto que não deixa o corpo soltar.
A outra guarda tudo para si. Se recolhe, sente o corpo pesado, se cobra em silêncio. A cólica dela aparece como um peso que não deixa o corpo se mover.
A mesma cólica pede cuidados diferentes. A primeira precisa desacelerar. A segunda precisa de calor e movimento. É por isso que uma receita pronta raramente funciona para todas.
O que você pode fazer em casa
São práticas antigas, passadas de mulher para mulher, que continuam fazendo sentido:
- Calor no ventre e na lombar. Uma bolsa de água morna ou uma compressa quente ajudam os tecidos a soltar.
- Escalda-pés. Água morna até os tornozelos por 15 a 20 minutos, com um punhado de sal grosso ou de ervas. O calor nos pés convida o corpo inteiro a desacelerar.
- Chás. A camomila e o gengibre são tradicionalmente usados nos dias de cólica. A camomila para acalmar; o gengibre para aquecer. Gestantes e quem usa medicação contínua devem conferir antes.
- Massagem no ventre. Com um óleo vegetal morno, em círculos lentos no sentido horário, ao redor do umbigo. Sem pressa e sem força.
- Movimento suave do quadril. Círculos com a pelve, de pé ou sentada na bola, e a respiração descendo até a barriga. Movimento devolve espaço ao que está apertado.
- Expiração longa. Solte o ar devagar, mais longo que a inspiração. É o jeito mais simples de dizer ao corpo que ele está seguro.
Comece observando
Anote o primeiro dia da menstruação e como estava a cólica, de zero a dez. Ao lado, escreva uma linha sobre o mês: como você dormiu, como comeu, quanto se moveu, o que pesou.
Depois de dois ou três ciclos, você vai começar a ver padrões que nenhum calendário genérico mostra.
Quando a cólica pede avaliação
Alguns sinais merecem a atenção de um profissional de saúde:
- a cólica impede você de trabalhar, estudar ou sair de casa;
- a dor piora a cada ano;
- dói durante a relação sexual, ao evacuar ou ao urinar no período menstrual;
- há sangramento fora do período ou fluxo muito intenso;
- a dor não melhora com nada do que você costuma fazer.
Esses sinais podem estar ligados a condições como a endometriose, que muitas vezes demora anos para ser reconhecida. Levar as suas anotações para a consulta ajuda muito.
O recado
Na próxima vez que a cólica chegar, cuide da dor do jeito que precisar. E, quando ela passar, experimente se perguntar: o que o meu corpo carregou este mês, e do que ele precisa agora?
Clarice Seixas · Fisioterapeuta e osteopata · MIMOS Naturais · Saúde Integrativa Feminina

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